Nascido em 02 de agosto de 1931, na localidade de Santo Antônio do Salto da Onça, hoje Padre Miguelinho, no Rio Grande do Norte, seu Mota construiu uma história que se confunde com a própria formação de Nova Mamoré.
Foi casado com Maria Bezerra Severino Inácio da Rocha (in memoriam), com quem teve 12 filhos: Canindé, Assis (já falecido), Isabel, Zuleide, Helena, Reneide, Quinha, Rosa, Conceição, Mariazinha, Teixeira e Netônia. Dessa união nasceram ainda 29 netos e 21 bisnetos, um verdadeiro legado de família.
Sua trajetória na Amazônia começou cedo. Chegou a Porto Velho no dia 19 de março de 1948, vindo de Manaus na chata Cuiabá, pelo rio Madeira, com o objetivo de trabalhar como seringueiro.
No entanto, ao saber dos perigos enfrentados nos seringais, decidiu mudar de rumo. Aceitou um trabalho na Guarda Territorial, onde passou 90 dias “tirando serviço na estação de luz de Porto Velho, cortando lenha e fazendo tijolo na olaria do território”.
Depois, seguiu para a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, onde trabalhou por cerca de um ano, tirando dormentes na mata. Foi com o dinheiro desses serviços que iniciou sua vida como comerciante, comprando e revendendo mercadorias entre Brasil e Bolívia.

Ele lembrava com riqueza de detalhes daquela época:
“Eu ia no trem até Vila Murtinho e Guajará, e de lá pra Bolívia comprar charque, batata, alho, queijo boliviano, espoleta e uísque pra revender em Porto Velho. O trem saía de Porto Velho segunda-feira às 7h e chegava às 17h em Abunã, onde pernoitava… No outro dia, os dois trens partiam de manhãzinha para seus destinos.”
Em 1952, após quatro anos em Rondônia, retornou ao Rio Grande do Norte com 11 contos de réis, uma fortuna para a época. “Era muito dinheiro! Quem guardou esse dinheiro pra mim foi o coronel Cesário, chefe de polícia”, recordava.
Foi nessa viagem que conheceu o amor de sua vida. Em uma quermesse, no Ceará, encantou-se por uma jovem que mais tarde se tornaria sua esposa. Com bom humor, ele contava: “Eu não conseguia nem chegar perto dela, só ficava agarrada na barra da saia da mãe… Com muito custo, já de madrugada, consegui dois dedos de prosa. Marquei um dia pra pedir ela em casamento. Onze dias depois, fui lá e disse que a gente ia casar e eu ia voltar pra Rondônia… Aí o pai dela disse: ‘Se é assim, nós vamos também!’ E eu, doido pra trazer a mulher, falei: ‘Lá é bom demais!’”
E assim fez. Trouxe não apenas a esposa, mas também seus pais e os pais dela. A viagem de retorno foi feita no navio Itanagé, do Lloyd Brasileiro.
De volta a Rondônia, viveu nos seringais de Candeias do Jamari e Guajará-Mirim por cerca de 10 anos. Em Guajará, comprou um carro de boi e passou a trabalhar com fretes: “Comprei um carro de boi e uma junta e fui fazer frete”, contava com simplicidade.
Em 1964, chegou à então Vila Murtinho, onde adquiriu um sítio. “Nesse ano agora vai fazer 55 anos que eu cheguei na Vila Murtinho”, dizia com orgulho.
Foi ali, no início de tudo, que ajudou a construir o que hoje é Nova Mamoré. Seu Mota afirmava que o primeiro morador da região foi o finado Zé Piraíba, e ele, o segundo. Seu roçado ficava exatamente onde hoje passa a BR-425, no mesmo local onde viveu até seus últimos dias.
Ele relembrava o surgimento da cidade: “Logo que passaram o picadão por aqui, foi vindo mais gente da Vila Murtinho pra ‘boca’, que era o nome desse lugar. Aí vieram João Barroso, Apolônio, Manoel Cândido, Coió, Raimundo Valdomiro, Bernaldo, Chico Pinto, João Morais… e muitos outros.”
A estrada que hoje liga a região foi aberta no braço, com esforço coletivo: “Foi tudo no machado, na foice, no facão e na enxada. Todo mundo ajudou.”
E completava, com um sorriso: “O primeiro carro que rodou aqui foi uma rural do José Valdomiro. Veio no trem pra Vila Murtinho e ficou muito tempo parada, porque não tinha estrada pra andar.”
Seu Mota foi mais que testemunha: foi protagonista de um tempo em que tudo era construído com coragem, união e esperança.
Nova Mamoré se despede de um pioneiro.
De um homem simples, forte e verdadeiro.
De um pedaço vivo da sua própria história.
Descanse em paz, seu Mota.
Fonte: Jornal Mamoré Agora
(Esse texto foi extraido de uma entrevista feita pelo comunicador Claudiomir Rodrigues.)
